06-02-2024

A CP foi pioneira e está no bom caminho

Garante o Tenente-Coronel António Neves, Conselheiro para Clientes com Necessidades Específicas da CP durante 19 anos.

Manhã de um dia de sol na Estação de Cascais, em Lisboa. Vamos ao encontro de António Neves, Tenente-Coronel que, nos últimos 19 anos, foi Conselheiro para Clientes com Necessidades Específicas da CP.

Acompanhado por uma das filhas, recebe-nos com um sorriso. E é com orgulho e satisfação que fala do trabalho realizado nas quase duas décadas em que interagiu com a nossa Empresa.

Na CP, explica o homem de 74 anos, sempre encontrou uma instituição pioneira e com vontade de encontrar soluções. E defende que o Conselho Consultivo para os Clientes com Necessidades Específicas foi "uma aposta muito bem conseguida".

"Reconheço que tem sido feito um esforço muito grande e meritório por parte dos técnicos e responsáveis da CP. Muito tem sido feito na área da preparação e adaptação dos comboios e carruagens. A CP tem desempenhado, neste aspeto, um papel muito importante e responsável", afirma António Neves.

"Estou satisfeito e sinto-me feliz por ter sido possível colaborar e contribuir com o meu trabalho nesta área. E acho que é reconhecido por todos, quer da parte dos clientes, quer da parte da CP, que as coisas estão a correr bem", acrescenta em jeito de balanço.

Quem é o Tenente-Coronel António Neves?

Nasci no Porto, em Leça da Palmeira, e quando era miúdo, teria seis anos, fui para Angola, com os meus pais e irmãos. Vivemos lá até 1975, quando regressamos a Portugal.

Em Angola, fiz o meu percurso todo, enquanto adolescente e estudante. Depois, quando chegou a altura, fui cumprir o serviço militar. Estive nos Comandos e, em julho de 1972, sofri um grave acidente, uma explosão com uma mina. Fiquei cego e biamputado.

Vim evacuado para o hospital, para Lisboa, estive aqui um ano e, entretanto, regressei a Angola, por minha decisão. Optei por continuar ao serviço ativo.

Segui a carreira militar, casei, tive filhos, uma vida normal. Academicamente, continuei os estudos. Antes de ter o acidente estava a tirar um curso de Engenharia Eletrotecnia e Máquinas. Na minha nova situação isso já não era viável. Mudei de horizontes, liguei-me às humanísticas e fiz uma licenciatura em Estudos Europeus e quase completei uma outra em História.

Também estive sempre ligado, desde que saí do hospital, ao movimento associativo, já que a problemática da deficiência passou a ser uma preocupação na minha vida. A minha associação, a Associação dos Deficientes das Forças Armadas, nasceu imediatamente a seguir ao 25 de Abril. Naquele tempo, os jovens militares com 20 e poucos anos tinham a força e o espírito de luta para seguir em frente e promover a reabilitação e a reintegração social. Estive sempre envolvido nessas áreas e também fui praticante de desporto.

Entretanto, em finais de 2004, fui contactado pela CP e convidado para desempenhar as funções de, na altura, Provedor para os Clientes com Necessidades Especiais.

Considera que a criação desta figura foi um passo importante para a CP?

A CP é pioneira nesta área. Como grande empresa de transportes públicos foi, creio, a primeira empresa a preocupar-se com essa parte da responsabilidade social. Criar a figura do Provedor foi muito importante e interessante.

Se fosse hoje, voltava a aceitar o convite para ser Conselheiro?

Sim, naturalmente. Sempre estive totalmente disponível para agarrar projetos ligados à problemática da deficiência, em todos os sentidos.

Foram muitos anos e tenho muito gosto e sinto muito orgulho por ter colaborado e conhecido pessoas fantásticas. Mas tenho 74 anos e é hora de dar lugar a outros, embora me mantenha disponível para colaborar. Estou à distância de um clique no telemóvel!

Que balanço faz destes 19 anos nas funções de Conselheiro?

É um balanço bastante positivo. É evidente que, ao longo destes anos, nem sempre as situações foram fáceis.

Tive o prazer de conhecer várias pessoas da CP, dos seus quadros e técnicos, e senti que há um espírito de tentar encontrar soluções que sirvam os interesses de ambas as partes.

Acho que a situação, dentro da CP, tem sido muito bem conduzida. Às vezes esquecemo-nos, quando se apontam dificuldades, de que quando a CP e outras empresas foram criadas, há quase 200 anos, ninguém se preocupava com os deficientes e com os clientes com necessidades Específicas. Depois, estamos perante um setor em que as intervenções também não são fáceis. Não é fácil substituir um comboio, por exemplo.

Tem de haver uma compreensão de parte a parte e eu julgo que, da parte da CP, tem havido um esforço muito grande dos seus técnicos em procurar soluções para determinados pontos relacionados com a acessibilidade ao comboio. Da parte das associações ligadas à problemática da deficiência, acho que também tem havido um bom contributo porque têm, ao longo destes anos, participado, muitas vezes ativamente, apresentando sugestões e ideias que a empresa vai acolhendo.

A acessibilidade aos comboios é um direito de todos e tem de ser uma preocupação da empresa preparar, adaptar, transformar os comboios e, quando comprar comboios novos, que eles estejam dentro dos parâmetros, sendo que, atualmente, tudo isso está regulamentado internacionalmente. Mas é preciso perceber que há dificuldades reais que não podem ser ultrapassadas. Por exemplo, o Alfa Pendular tem uma carruagem própria perfeitamente adaptada para transportar pessoas com mobilidade reduzida, tem um elevador e os meios necessários para fixar cadeiras de rodas, mas só tem espaço para duas cadeiras de rodas por viagem. Se aparecer um grupo de 10 ou 20 pessoas em cadeira de rodas não podem ir simultaneamente, embora tenham o direito a andar de comboio. Tem de haver algum bom senso de parte a parte.

E acho que isso tem sido conseguido porque o índice de queixas e reclamações é muito pequeno.

Considera que essa diminuição de reclamações é fruto do trabalho que tem sido realizado?

Sim, acho que sim. Quer nestas reuniões do Conselho Consultivo quer noutros fóruns, com as associações representativas da maior parte dos deficientes a nível nacional, há essa perfeita compreensão e esse espírito de colaboração. É sempre possível, dentro do Conselho Consultivo, apontar dificuldades ou dar sugestões. Acho que este órgão foi uma aposta muito bem conseguida.

E uma coisa que tem sido feita é que, sempre que os serviços técnicos da CP desenvolvem qualquer transformação e adaptação num comboio ou carruagem, há a preocupação de convidar pessoas ligadas as essas associações para irem testar aquela solução. Tem havido essa parceria e entendo que isso é muito importante.

Pela minha parte, estou satisfeito e sinto-me feliz por ter sido possível colaborar e contribuir com o meu trabalho nesta área. E acho que é reconhecido por todos, quer da parte dos clientes, quer da parte da CP, que as coisas estão a correr bem.

Quais diria que foram as principais conquistas nestes 19 anos em termos de melhorias para os clientes?

Sob o ponto de vista técnico, houve melhorias que, parecendo pequenas, são muito importantes. Estamos a falar das acessibilidades, das rampas… A grande dificuldade que se põe é que não há homogeneidade no material. Os comboios são todos diferentes e as estações também. Torna-se extremamente difícil padronizar um equipamento que sirva todos os comboios e estações. Mesmo assim, muita coisa foi conseguida e bem conseguida.

Mas os problemas não estão só nos comboios, estão na estação e estão no passeio, em todas as barreiras arquitetónicas que dificultam o acesso da via pública até à carruagem. Fizemos um esforço grande em trazer para esse Conselho os representantes das autarquias, porque as autarquias também têm um papel a desempenhar. É preciso uma conjugação de fatores para resolver o problema.

A CP criou também criou, dentro dos seus serviços, um programa que é o SIM - Serviço Integrado de Mobilidade para Clientes com Necessidades Específicas, que tem sido melhorado e que é um excelente programa. O tempo necessário para pedir ajuda à CP começou por ser de 48 horas e agora é de seis horas, o que é ótimo. Qualquer pessoa com deficiência que queira andar de comboio tem a possibilidade de ter esse atendimento, para facilitar as condições de acesso.

O que é que ainda falta fazer para tornar os comboios mais acessíveis a todos?

Acho que o grande esforço, mas que não se pode fazer de um dia para o outro, e compreendo isso, tem de ser na modernização dos equipamentos.

Se vamos aqui no comboio em Cascais e o comboio não tem indicação sonora, porque o sistema avariou, esse é um grande handicap para quem lá for, porque não adianta que, no ecrã, apareça que a próxima estação é Carcavelos se eu for cego e eu não conseguir ler aquilo. Assim como o aviso áudio pode não ser o necessário para alguém que seja surdo.

É reconhecido pelo Governo e pela CP que o parque ferroviário é muito antigo. E, portanto, o grande esforço, para mim, tem de ser feito na substituição do material por equipamentos novos que já venham preparados para acudir a estas dificuldades. Não só comboios, mas, por exemplo, a automatização das máquinas de venda dos bilhetes.

Também há outra área em que considero fundamental investir, que é a área humana. Os funcionários da CP têm de ter formação específica para os alertar/sensibilizar para as boas práticas em relação ao universo de clientes com necessidades Específicas. Isso é muito importante. Já tive oportunidade de, há uns anos, participar numa campanha de formação a perto de 200 funcionários, aqui e no Porto. Mas isso é uma coisa que tem de ser recorrente, tem de se repetir.

Como avalia o esforço da CP para criar condições para os clientes com necessidades especiais?

Muito bom. Reconheço que tem sido feito um esforço muito grande e meritório por parte dos técnicos e responsáveis da CP. Muito tem sido feito na área da preparação e adaptação dos comboios e carruagens.

A CP tem desempenhado, neste aspeto, um papel muito importante e responsável. Mas ainda há barreiras a ultrapassar.

Acho que a criação da figura do Conselheiro e do Conselho Consultivo foram metas muito importantes e que muito contribuem para o universo de cidadãos com necessidades especiais. E não é preciso ter deficiência, qualquer pessoa idosa que não tem a agilidade necessária para subir para uma carruagem é uma pessoa que carece de uma atenção especial. Qualquer um que parta uma perna e ande de canadianas é um cliente com necessidades Específicas.

A CP está no bom caminho e tudo o que puder fazer é sempre bom.